Prelúdio suíço. Prelúdio coisa nenhuma. A Suíça, vocês notarão, é uma das constantes dessa viagem. Mas que começa em Zurich (começa na verdade em algum lugar entre o norte de Minas e o sul da Bahia, a dez mil pés, quando a swiss air passa a subornar seus reféns com chocolates e gruyeres “da casa”). Disse Zurich? Desculpem-me. Quis dizer Flughafen Zurich o novo terminal internacional, o mais próximo que cheguei, por hora, do solo suiço. É bom lembrar que estávamos a caminho do berço da civilização – e devo dizer, agora já de volta, que nem é o berço: é nada menos que a sala de parto – mas não tínhamos em mente que para chegar lá precisaríamos cruzar com a outra ponta da história – o estado da arte, os cascos escovados da civilização galopante.
Design suíço. Design coisa nenhuma. Ou todo o resto do que chamamos de design precisa de um outro nome - talvez seja o que os suíços chamam de Scheiße. Um exemplo? Você pega o trem que interliga os terminais. Uma sucessão de frames dispostos ao longo do tunel formam uma espécie de “curta” para ser apreciados pelas enormes e cristalinas laterais do vagão. Detalhe: a viagem não dura três minutos. Não gaste tempo pensando em como se sincroniza isso; sincronia é o que se vê em todo lugar: na longa negociação dos brises com o sol e nos encontros incrivelmente simultâneos de granitos, vidros, madeiras e telas metálicas em cada vértice do terminal.
Sentado no Central Bar, sendo prazeirosamente esfaqueado em troca de um simples (n)espresso, me surpreendo, sem jeito, sobre como precisão é um conceito absoluto nas prachetas suíças; ora, para relojoeiros, não há papo mais obscurantista que “margem de erro”; dessas mentes, lapiseiras e calculadoras erguem-se estradas, edifícios, cadeiras que esnobam nossa vã engenharia; de resto, é como se perguntassem “e quem vai errar, cara-não-pálida?”
Viagens. Vale a pena documentá-las? Estou nesse embate há dias, daí o sumiço prolongado, amplamente notado pelos 15 fiéis desta igrejinha.
Uma retrospectiva indica que, pelo menos para os arquitetos, o assunto interessa - o que Ítalo Calvino deve ter notado em sua conta bancária ao longo dos anos. Dentre as cidades visíveis, é inevitável destacar o que um tour pelo oriente próximo (da Europa, bien sur) fez com o jovem – e já bom escritor – Charles-Edouard: transformou-o em Le Corbusier. Sim, ninguém inventa um nome de tablóide sensacionalista para si mesmo sem uma boa dose de desrazão. E essa desrazão nasceu nessa viagem.
As referências não são coincidência.
O trecho mais interessante da “Viagem do Oriente” é justamente o que fui conhecer – Grécia e Turquia – e mesmo um século depois várias experiências podem ser relatadas como idênticas. Já nas diferenças, algumas desvantagens, destacando-se a duração da viagem, já que nosso visionário pré-Corbs teve meses para desfrutar o que rapidamente conheci em 15 dias. Por outro lado, suspeito que tive um pouco mais de conforto e certamente, estava mais bem acompanhado. No lugar do pinguço Auguste, eu estava com a Sandra, recém casada com este que vos fala. Calma, não fujam ainda. Deixarei os relatos da lua-de-mel para os amigos acostumados a tal aborrecimento. Mas arquitetos em viagem, não importa a fase lunar do relacionamento, trazem mais que presentes (e quilos extras) na bagagem.
E Calvino, gênio, enxergou o óbvio: você pode relatar o mesmo lugar infinitas vezes; cada aspecto de uma cidade faz dela uma cidade diferente. Tentar descrever Atenas ou Istambul em UM simples discurso linear é como tentar explicar a chuva que você tomou descrevendo uma das gotas.
Visitei infinitas cidades em 15 dias. Vamos ver quantas eu consigo descrever aqui. Stay tuned.