como aprendi a parar de me preocupar e a amar a crise
Não precisamos de crise alguma para viver a ansiedade de termos ou não trabalho. Ela é parte inseparável da profissão, e não pode ser vendida separadamente.
Cada telefonema, cada edital, tem sempre o impacto psicológico de um milagre, de uma intervenção divina, diante dos seus olhos, na sua mesa.
Le Corbusier disse que a primeira lei da arquitetura é arranjar trabalho. Todo mundo dá mais valor aos 5 pontos, mas acho que foi nesse aforismo que ele really nailed it. Arranjar trabalho honestamente - entregar o que você prometeu - condensa boa parte da aventura que nos leva ao mundo da gastrite, insônia e da salvação automática das almas.
A passagem da crise inevitavelmente leva a uma baixada geral na pressão – mas certamente não na temperatura - dos escritórios e dos colegas que trabalham sozinhos (o que hoje em dia é outra categoria específica de milagre, mas, once again, divago). Claro, existem exceções específicas – como eu disse, está todo mundo sempre a um telefonema de se salvar do apocalipse –mas no geral , os dias começam a ficar mais longos, o dinheiro mais curto e as salas, mais vazias.
Enquanto a crise não toca o solo (a luz do cinto já está acesa, o serviço de bordo já encerrou faz tempo, a gasolina não dura para sempre, mas sabe como é, né: como em congonhas, os controladores de vôo não se entendem) esse hiato que se abre na agenda – e que se estreita entre as faces da carteira – nos permitem por em dia certas questões eternamente adiadas por causa da, huh, loucura do trabalho.
Poucas experiências são tão enriquecedoras quanto visitar uma feira de construção. Não, claro, pelos produtos, em sua esmagadora maioria variando de constrangedores a inúteis, mas pra você ver aonde vai parar a arquitetura se ninguém ficar esperto. Sugiro que você leve amigos, porque não é justo não ter com quem comentar a apresentação dos caixilhos a prova de, sei lá, pombas e raios gama.
Quando você acha que vai criar coragem de aprender a usar um software BIM? Quando fechar aquele projeto com um prazo indecoroso e remuneração estóica? Vai, pode falar, você nem sabe direito o que é esse tal de BIM. Pois não há momento melhor para se aprender um software, vocês sabem, estou apenas lhes refrescando a memória, do que quando você NÃO PRECISA EFETIVAMENTE DELES. E tudo o que você precisa é de um processador mais ou menos e café. Na dúvida, fique com o café.
E claro, estudar arquitetura. Ler – não blogs, isso eu sei que você vai fazer de um jeito ou de outro – mas aquela El Croquis que você pagou uma nota, aquela revista que você assina só pra ver as figurinhas, que estão lá te lembrando todo dia que você prometeu a si mesmo lê-los assim que desse.
Certo como o Sol vai nascer no Leste (e refletir do prédio vizinho bem na minha cara as 9:25 da manhã) é que a crise vai passar. A loucura de trabalho vai voltar – a grana em seguida, espera-se. A questão é o que você vai ter feito desse tempo em que você ficou aí, alem de botecar mais com os amigos.
Não precisamos de uma crise para ficarmos mais ansiosos, como eu disse. Mas talvez as vezes precisemos de uma pra colocar a vida em perspectiva – e ver se o render está bom ainda.