O carro ganha velocidade em uma larga avenida, perfeitamente retilínea. Seu reflexo o acompanha, ritmicamente interrompido no intervalo entre as fachadas espelhadas dos arranha-céus. São muitos deles, de ambos os lados, formando aquele vertiginoso vale de concreto e vidro, em grandes perspectivas que se entrecruzam compartilhando semáforos. Somado aos luminosos letreiros gigantes, o cenário evoca familiaridade, a consciência de já ter rodado aquelas ruas em vários filmes ao longo dos anos, exceto por um detalhe. As ruas estão completamente desertas, exceto por um ou outro senhor de turbante atravessando a rua. Abre los ojos, amigo. Você está em Dubai.
Muito em breve, essa será apenas umas das insólitas experiências que emergem no encontro entre o deserto com o Golfo Pérsico, na maior celebridade urbanística deste início de século. Mas se um pedaço de Manhattan boiando em uma jangada artificial em alto mar soa como uma nostalgia do século XX para você, não se apresse. A pororoca urbana que se forma quando o (dinheiro do) petróleo encontra o mar deixa um rastro maior que meros castelinhos de areia.
A ambição do emirado é digna das fábulas com que a cultura islâmica encantou o mundo. Erguer um monumento urbano para o novo século, reunindo para a tarefa os mais arrojados arquitetos do mundo, e oferecendo a eles recursos que pareceriam miragens nos cofres de qualquer cidade do mundo ocidental.
O sonho de Dubai é receber a atenção – turistas – de todo o mundo; por via das dúvidas, já tem reproduzida em sua costa o mapa-múndi, em forma de ilhas particulares distribuídas para alguns garotos-propaganda globais se sentirem em casa enquanto descansam entre as inúmeras atrações turísticas que a cidade oferecerá. Para os que preferem as alturas, pelo menos seis estrelas do céu já foram reservadas para o Burj-Al-Arab, o hotel-veleiro ancorado não muito longe da orla. Ou, se a vista da cidade à distância parecer monótona, talvez a opção seja dar uma voltinha pela cidade – mesmo sem sair do conforto do ar condicionado. O próprio prédio oferecerá uma providencial voltinha para você, girando em torno do seu eixo como uma perfuratriz – talvez correndo o risco de encontrar mais petróleo no processo. Como? Com engenho, e muito dinheiro.
Desde Las Vegas uma cidade não brotava do deserto com tamanho foco em entretenimento e oportunidades de torrar dinheiro de formas extravagantes; os turistas realmente não têm do que reclamar. Mas voltemos aos rapazes de turbante atravessando a rua lá atrás. O verdadeiro enigma de Dubai consiste em decifrar de onde eles estão vindo, e para onde eles vão. Como vivem as pessoas que desembarcam em Dubai sem a passagem de volta marcada? Não que exista uma contradição entre entretenimento e moradia em uma cidade – existe uma tensão constante, claro, como quem mora em São Paulo, por exemplo, sabe bem – mas essa é uma trégua que se constrói com o tempo. E tempo, na lenda de Dubai, é algo que faz as mil e uma noites parecerem uma eternidade. O oásis tem de ser instantâneo, ou não vai matar a sede do sheik. E aí está o problema.
Dubai pode se orgulhar da imagem auto-sugerida de arquipélago urbano, mas comete o equivoco fatal de ignorar que independente do tamanho da infra-estrutura encontrada em uma ilha deserta, todo mundo que nela chega se sente um náufrago.
Tão difícil quanto se adaptar a novos climas e temperos, será se apresentar aos outros náufragos. Suas histórias pessoais não têm um lugar em comum; é a cidade, cheia de lugares incomuns, que precisará revelar as esquinas onde amigos se encontram, parques onde se começam e terminam namoros, a saudável competição entre o melhor café de padaria. Até lá, as âncoras que amarram de verdade uma cidade nunca tocarão o solo, a as pessoas continuarão à deriva mesmo em solo firme.
Em uma época de permanente comunicação, o conceito de ilhas parece atender mais aos olhos (e satélites do Google) do que à vida de seus habitantes. As pontes, por enquanto, são poucas – a maioria aéreas – e não se propõe a muito mais que conectar os brinquedos urbanos distribuídos por longas e escaldantes avenidas.
Como parque de diversões, não há dúvida, o sucesso de Dubai já está garantido. Assim como é garantido que, passado o frisson inicial, terá de se reconstruir continuamente para continuar atraindo o interesse dos entediados viajantes globais. Seria bom, se simultaneamente, e sem alarde, uma pequena e menos vistosa Dubai fosse envelhecendo em um ritmo mais moderado, enfrentando seus dilemas com criatividade e paciência, mas garantindo a integração de seus verdadeiros moradores, para que não sejam nômades em suas próprias terras.
Publicado originalmente na Revista MORAR de Agosto | Folha de São Paulo, com belas fotos - que não são roubadas do google earth como as debaixo
O hotel 6 estrelas (parece que subiram pra 7)
A torre que roda, roda e avisa.
Ilha da fantasia individual para astros de Hollywood (mas essa segundo o kiko, é do Schumacher)
Bonus track 1:
É assim que se faz Dubai.
Bonus track 2:
Texto na The New Yorker, via Juliana "after the fall, tks again.
No fim da primeira temporada de Californication (estou desconsiderando solenemente a hipótese de você não saber do que eu estou falando) a Karen descola uma reforma em uma casa projetada pelo Ray Kappe.
Quem? Pois é, esse é um mundo em que muita gente sabe quem é os glennmurcutts da vida, quase ninguem faz ideia de quem seja o Kappe.
Você está enxergando o quadro acima? Se não, é porque ainda não instalou o plugin do Microsoft Labs Photosynth, alardeado neste blog
há algum tempo atrás. Bem, a tecnologia já evoluiu para um protótipo utilizável, como atestam essas fotos que eu fiz do sítio do meu tio. Podia ser um projeto bem melhor, concordo, mas era o que eu tinha em casa pra "sintetizar" no programa.
Eu aposto que é o próximo grande "hype" depois do google earth, pela facilidade de uso e pela real aplicação em mostrar o espaço, fazendo uma documentação virtual bem diferente de qualquer outro programa já desenvolvido. Imagine tirar centenas de fotos de uma casa para reformar, chegar no escritório e montar um modelo virtual da construção, hein? hein? Mais informações, aqui ó: