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Segunda-feira, Junho 30, 2008


Réquiem para um Sonho



Nem que seja por um breve momento, o sonho de morar em um lugar mais tranqüilo já deve ter passado pela sua cabeça. Ou, mais provável, é que esse momento não tenha sido tão breve, afinal, tempo para pensar é o que não falta enquanto tentamos simplesmente voltar para casa no fim do dia – não importa por qual meio. Posando para a natureza morta do engarrafamento diário, observamos o excesso de carros, poluição e barulho combinados à ausência de segurança, contato com o verde e paciência, e logo nos vem à mente uma das idéias mais sedutoras que o cidadão metropolitano se depara hoje em dia: arrumar as malas e se embrenhar na promessa de vida bucólica dos condomínios afastados da cidade.

Viver em grandes cidades tem, de fato, apresentado uma conta cada vez mais salgada, graças à inexistência de um bom plano de crescimento: em São Paulo, por exemplo, a maioria dos bairros não tem um sistema viário, tem uma infiltração. São pequenos veios de carros que, ao não conseguirem escorrer pelos encanamentos planejados, vão se afunilando em ruas que não foram planejadas para receber muito tráfego além do pessoal que foi até a padaria e já volta. Com o passar do tempo, essas ruelas vão se tornando atalhos conhecidos, que pouco depois, são institucionalizados com “direito” a uma linha de ônibus e semáforos a cada esquina. Durma-se, respire-se, viva-se com um barulho desses.

Mas se a qualidade de vida nas cidades se tornou um desafio, a solução “rural” não é exatamente uma vitória: a decisão de abandonar a civilização e voltar para a cabana primitiva – levando, claro, a TV paga junto – está amparada em uma ilusão: ninguém está, de fato, se livrando dos problemas da cidade, está somente fugindo da bagunça imediata – mas como crianças que fogem de casa e tudo o que conseguem é dar a volta no quarteirão. A bagunça vem atrás, sem pressa, rindo daquela ingenuidade corajosa, e sabendo que essa aventura leva as pessoas ao mesmo lugar da onde saíram. Em se tratando da vida urbana, você pode fugir, mas na pode se esconder.


Antes que alguém possa se entediar com aquele mar de casinhas tranqüilas, o condomínio deixará de ser um refúgio bucólico: aquela bela paisagem ao fundo logo se tornará o próximo condomínio. O que era fim da linha se torna novamente passagem - assim como aconteceu os bairros centrais da cidade um dia – e em breve o transito estará de volta. Ainda levará um tempo para o morador reconhecer o lugar como cidade – afinal, ele está a meia hora de carro da padaria mais próxima, e só Deus (e talvez a Companhia de Tráfego) sabe a quanto tempo do trabalho. No fim das contas, a cidade vai se reconstituir ali, aos poucos, o morador vai perceber que ele apenas acrescentou um pedágio ou dois a sua vida.

A questão não está tanto nas qualidades “ambientais” dos condomínios off-road, mas na ausência mesmo da cidade. As pessoas escolheram se agrupar em um mesmo território, há séculos atrás, por uma boa razão: juntos, produzimos uma qualidade de vida mais rica e variada. A cidade centraliza nossas iniciativas e desejos, todos eles misturados em cada quarteirão, em cada bairro, em cada encontro casual entre amigos na calçada. É na multiplicidade de ofertas da cidade que descobrimos afinal quais são as nossas preferências, os nossos valores, enfim, a nós mesmos. Agregar essa experiência urbana a certo padrão de qualidade de vida não é tão difícil – ou pelo menos, não é contraditório. Dá para fazer da cidade um lugar habitável, ainda que apinhado de gente. É só trocarmos à ilusão de uma vida campestre ao qual não nos acostumaremos mais, e enfrentarmos a realidade urbana com coragem, um bom plano urbanístico, e vá lá, alguma esperança.




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Quinta-feira, Junho 26, 2008






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Terça-feira, Junho 24, 2008



MÁXIMA DE 15°C



Vai uma dose de arquitetura aí pra esquentar?




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Segunda-feira, Junho 02, 2008




ARMAZENANDO MEMÓRIAS




Não foi apenas pensando em resolver o problema do excesso de roupas que o arquiteto Shigueru Ban, na década de noventa, criou a série de casas batizadas de Furniture Houses. De fato, Ban, japonês acostumado – e preocupado – com os desastres causados por terremotos, descobriu que o papel dos armários domésticos durante o incidente é capital – acabando com vidas ao caírem, ou preservando-as quando restam como única estrutura segurando lajes no lugar. Daí a idéia de transformar esses armários na própria estrutura da casa, o que lhe confere não apenas a segurança planejada, mas uma liberdade espacial tão prática quanto bela. Feita a ressalva sobre o nobre objetivo desse design, uma observação sobre o excesso de roupas: deve ter sido pensando nisso também.

A sociedade japonesa contemporânea é conhecida por duas características a princípio contraditórias: acumular coisas e não ter espaço para armazená-las. Mas se por lá os arquitetos estão cientes de que essa é uma das principais dificuldades domésticas atuais a serem equacionadas, por aqui, os problemas de estocagem continuam se empilhando de qualquer jeito sobre cadeiras e mesas a procura de uma prateleira na qual se organizem.

Os imóveis lançados hoje em dia, tão focados nas quantidades de “suítes master” e outros ambientes de nomes tão pomposos quanto parecem ignorar o óbvio: habitar também é, desde o principio, estocar – sejam roupas, sejam memórias. A afetividade do lar também é feita de objetos, e convenhamos, uma vez fora do caminhão de mudança, eles só se sentem em casa em cabides ou prateleiras.

É claro que a falta de armários não é causa, mas conseqüência do conflito entre a arquitetura e o mobiliário no projeto. Entrincheirados em meio a uma profusão desordenada de ambientes em áreas exíguas, os moradores tentam se conformar com quartos em que mal cabe uma cama, (o que dizer uma cômoda); desenvolvem com o tempo o hábito de se equilibrar entre sofás e mesinhas – tão espaçosas na planta – mas que parecem intrusos incorrigíveis naquela sala que vazia parece tão confortável.

Não precisaria ser assim. Não são poucas, hoje em dia, as soluções de projeto embasadas em pesquisas acadêmicas, (sem contar com o bom senso, claro) que vêm, ao longo do tempo, nos ajudando a tomar consciência do que precisa evoluir nas habitações para que continuem confortáveis. É através delas, por exemplo, que banheiros e cozinhas vêm deixando de se apresentar como instalações militares para ganhar dignidade de convívio social – ou pelo menos mais confortável para os moradores.

O problema é que no divórcio consumado entre a pesquisa acadêmica e a produção imobiliária a separação de bens foi clara: a academia ficou com os livros, e o mercado, com todo o resto. Os filhos órfãos, como sempre, somos nós. Pagamos o preço literalmente, toda vez que um apartamento de quatro quartos converte-se em dois quartos com “closet”, ou um de dois quartos – o preferido de casais sem filhos! – vira um quarto mais escritório (e depósito de presentes de casamento). Os de um quarto não viram nada; com seus ambientes minúsculos, são e continuam sendo uma esbórnia de coisas espalhadas.

Bastaria à produção imobiliária contar com esses e outros conhecimentos sobre os modos de vida contemporânea, para resolver os impasses na hora de escolher um novo lar. Quem sabe, ao invés de salas de “cinema doméstico” para quem não tem mais que um DVD, o sortudo morador não se deparasse com um closet, ou outros ambientes com quantidade de armários proporcional ao número de moradores, e não ao número de ambientes do apartamento. Antes de entrar no mérito sobre o prédio ser “neo” isso ou aquilo, parece-me um bom ponto de partida para revisar as formas como as moradias são projetadas.

OK, talvez seja mais fácil esperar um terremoto.









Publicado originalmente na Revista MORAR - Folha de São Paulo, edição de Maio de 2008

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PS: Mais um brilhante exemplo, sugerido pelo Marcos Serrador. Good buddies makes a good blog, tks.




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